outubro 10, 2010

Discorrer etéreo

Corria. Corriam os braços, as pernas. Mas ele não se movia. À sua espreita uma sombra indefinida o seguia. Ele percebeu que correr era inútil, por mais esforço que pensasse tentar em fazer. Percebeu também que pensar era inútil, já não tinha mais controle de nada que queria. O próprio querer pareceu inútil, seus tantos desejos eram apenas projeções pré-concebidas. Por fim, seu próprio eu pareceu inútil. E, após um tempo, não só pareceu, mas confirmou-se inútil. Não havia ação, pensamento ou desejo. Do que seu ser era constituído, então? Apenas de vazio. Corajosamente ele parou de correr. E assim fez a sombra. Ele virou-se então de frente a ela e observou o predador no interior de seus olhos negros. Pareceu-lhe nobre que morresse lutando, não fugindo. Mas, uma vez que ele tivesse partido, a forma não faria diferença. Ele apenas iria deixar aquele lugar no qual ficou preso por tanto tempo e era isso o que importava. Num gesto humilde, sorriu polidamente para a escuridão e convidou-a para avançar sobre ele.

Um comentário:

Forti / Sousa disse...

Sua narrativa é impressionante, envolveu-me a ponto de prender-me no texto, até porque muitas vezes nós, estudantes, nos sentimos assim.
Não tem nada de infantil aí cara...
Ganhou um leitor assíduo, adorei o seu texto!